Inteligência e Testes de QI
     
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"É possível definir inteligência?" PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Carlos Simões   
Segunda, 26 Janeiro 2009 23:59

A capacidade de em menor tempo e com maior precisão, responder a um determinado problema, reagir a uma determinada situação. Ou seja, é mais inteligente aquele que, mais rapidamente analisa o problema que lhe é posto, opta por uma acção, responde e responde correctamente. Quanto mais complexo for o problema, quanto maior for o número de variáveis, quanto mais subtil for o padrão subjacente, maior inteligência indica a resposta, quando correcta. Mesmo na qualidade das respostas se pode ainda avaliar a inteligência... ponho o exemplo do famoso problema das 12 moedas... a resposta típica demonstra inteligência... mas existe outra forma de resolver o problema... que evidencia, acho, uma maior inteligência.

Isto é válido tanto para testes de QI como para os problemas do dia-a-dia. O condutor que tem mais probabilidades de sair ileso de um choque em cadeia é o que mais rapidamente responde... adequadamente. O piloto de combate de F-16 sair-se-á necessariamente bem em testes de QI como o Raven. Mas obviamente o QI acima da média não basta para ser bom piloto de caça.

Dizia MacArthur "The history of failure can be summed up in two words... too late".

O que nos leva a pensar que "a inteligência é processamento livre de erros" e pode levar-nos a aceitar a existência de um factor, subjacente a todas as actividades cognitivas, que condiciona de forma significativa o nível de qualidade dessas actividades.

Desde 1927, com Spearman, que se propôs que a inteligência consiste num factor geral, chamado de g e num conjunto de outros factores específicos. Na definição de Spearman do que é a inteligência, o factor crítico é assumido como sendo o comum, o factor g, que influenciará todas as tarefas intelectuais.

Este factor g foi mais recentemente referido em termos de um mecanismo central básico de processamento (Anderson, 1992; Detterman, 1987; Nettelbeck & Vita, 1990).

A ausência de "ruído", de erros, de repetições, aliada a uma maior capacidade de lidar com um maior número de dados (anteriormente adquiridos, convenientemente catalogados e rapidamente acedidos e/ou adquiridos no instante, rapidamente hierarquizados e concluída a sua relevância) leva a que a resposta correcta seja mais rápida, mais clara, mais adequada...

Considero então três aspectos, um pouco como Sternberg:

1- Um interno, que consiste nos processos cognitivos que formam o núcleo do pensamento. Concordo com Sternberg quando este define três tipos de processos: os que estão envolvidos na decisão e os que analisam a posteriori essa decisão, os que estão envolvidos na tradução da decisão em actos e os que estão envolvidos no processo de aprendizagem que necessariamente existiu e que permite realizar a acção... por exemplo a rapidez da análise custo/quantidade quando se decide sobre a melhor compra no supermercado pode indicar mais rapidez de raciocínio e inteligência, mas exige claro que se saiba ler. O factor g é comum a todos estes processos cognitivos;

2- Um externo: que consiste na interacção com o ambiente externo. Os processos mentais são então utilizados para uma melhor adaptação ao ambiente que nos rodeia, para a modificação do ambiente que nos rodeia para que nos seja mais útil, agradável, seguro etc. e para a selecção de outros ambientes quando o actual se mostra insatisfatório e/ou não passível de modificação. NMO é aqui que podemos encaixar o conceito de Inteligência Emocional;

3- A integração do mundo interno e do mundo externo através da experiência. Não contestaremos que uma medida da inteligência é a habilidade para lidar correctamente com situações relativamente novas, por exemplo a mudança de culturas, as situações de emergência etc.

""inteligência" é um conceito social que tem um significado diferente para pessoas diferentes?"
"como é que se pode discutir a inteligência de à partida pessoas diferentes tiverem conceitos diferente?"

Não é um conceito social! O factor g a existir terá que ter um substrato biológico. Já chega de entidades etéreas! A inteligência cristalizada e fluida, a memória e um sem número de outros processos mentais terão que ter uma razão biológica, bioquímica, fisiológica. E se não conhecemos já que fundamentos são esses tal deve-se única e exclusivamente às nossas actuais limitações. Ou assumimos que já sabemos tudo o que é possível saber?

Agora se as pessoas, muitas vezes sem qualquer conhecimento ou análise mais profunda sobre o assunto, entendem inteligência de maneira diferente, isso é outra coisa. Não implica que tenhamos que as aceitar. Teremos que as esclarecer.

Convém que se esclarece uma coisa: ser mais inteligente não significa ser melhor, ou ter mais sucesso profissional ou financeiro. As pessoas humildes e sábias aceitam que outras são mais inteligentes... e que essas pessoas mais inteligentes não pertencem ao panteão dos deuses... podem ser comuns mortais que compartilham o autocarro connosco. Mas como a humildade e a sabedoria estão cada vez mais ausentes da nossa sociedade, em que toda a gente se acha mais esperta e com mais razão que o resto do vizinhos, é normal esta reacção violentíssima ao assumir que há pessoas mais inteligentes. Por isso é que temos incompetentes no poder, por isso é que caiem pontes, por isso é que se desperdiça dinheiro em projectos falhados à nascença ou completamente inapropriados. Os incompetentes, incultos e ineptos estão onde nunca deveriam estar.

"Pode a inteligência ser quantificada?"
"Podem os testes de QI quantificar a inteligência?"

A inteligência fluida, o g, a tal rapidez e clareza de raciocínio pode ser quantificada.

Sternberg, usando modelos matemáticos aplicados a dados experimentais de tempo de reacção, tentou isolar os diferentes componentes do processamento da informação. Determinou, em circunstâncias bem definidas, se foram (ou não) utilizados alguns processos cognitivos fundamentais, quantos deles foram usados, quanto tempo levou cada processo, e quão susceptível ao erro foi. Demostrou assim mais tarde que os mesmos processos cognitivos estão envolvidos numa variedade de tarefas intelectuais e sugeriu que estes e outros processos relacionados se reflectem objectivamente nos resultados obtidos nos testes de inteligência.

É hoje consensual que os testes de QI geralmente usados como o Raven APM medem de forma coerente o factor g. Se aceitarmos que esse factor está presente em todos os processos cognitivos que são o fundamento da Inteligência Humana, então um teste de QI poderá fornecer informação válida sobre o potencial do indivíduo.

"Estamos mesmo a falar de inteligência, ou o que nos interessa é outras coisas como a imaginação ou a cultura geral?"

Imaginação, criatividade, não são mensuráveis por testes de QI.

Quando se fala em cultura geral, fala-se em aquisição de conhecimento. A capacidade de aquisição de conhecimento está com certeza relacionada com o g, demonstrando-se naquilo que Spearman chamou de inteligência cristalizada, que pode ser descrita como pode ser descrito como a amplitude do conhecimento, a sofisticação, a inteligência da experiência, a apropriação da inteligência colectiva...

Quanto à relação QI/Criatividade sugiro a leitura do artigo "The Creativity / IQ Interface" cujo link pode ser encontrado na secção de artigos.

"No acesso a cargos públicos, os testes de inteligência devem ser ignorados porque não medem correctamente a inteligência, porque usar esses testes é pior que não os usar ou porque a inteligência não deve ser um factor a ter em conta?"

Convém definir a que funções se refere. De topo? Intermédios? Com funções e responsabilidades de natureza técnica ou meramente administrativas? É que vejamos, para gestor de uma central nuclear, eu gostaria de ter alguém, que para além da formação óbvia, evidenciasse rapidez e clareza de raciocínio e que invariavelmente chegasse a conclusões correctas... como não posso avaliar o desempenho de uma vida inteira, terei que ter um instrumento que me permite avaliar, com algum grau de certeza, esse desempenho. Se o candidato não passasse de 22 correctas no Raven APM II eu teria sérias dúvidas quanto à sua prestação adequada quando todos os alarmes da central disparassem e poucos minutos restassem para tomar a decisão correcta e evitar a catástrofe.

Agora, se se limita a pôr carimbos no papel, o QI é irrelevante.

Como costumo dizer a propósito desta pseudo polémica acerca do QI e do QE (o tal quociente que não é quociente)... vamos supor que sou dono de uma empresa que fabrica e comercializa frigoríficos: é obvio que prefiro um génio da electrotecnia na I/D, com um QI de 160 e liminarmente autista em termos sociais... mas que desenvolve máquinas soberbas, eficientes e fiáveis... mas não o quereria a vender as mesmas máquinas... aí gostaria de ter alguém que conseguisse "vender frigoríficos a esquimós".

A inteligência adequada no lugar certo.

Há algum tempo fiz testes no âmbito de uma candidatura a uma função de natureza técnica. No mesmo dia estavam na sala da agência 5 ou 6 candidatos de um outro processo de admissão (que identifiquei como sendo de uma instituição bancária). A bateria de testes foi administrada, mas dos 5 testes feitos, 2 dos que fiz eram diferentes dos restantes testados. Um desses testes era um teste de inteligência, o outro de rapidez de cálculo mental.

Se no mercado de trabalho se pode discriminar e seleccionar com base em testes destes, perspectiva que considero correcta do ponto de vista do empregador, porque não podemos nós pedir que na função pública, em serviços vitais e fundamentais para a sociedade, tal distinção seja também feita? A INTELIGÊNCIA ADEQUADA NO LUGAR CERTO.

"as pessoas inteligentes devem ter mais direitos que as outras? Menos?"

Mas que diabo de questão. É que nem sequer há razão para a colocar. Se aceitarmos como válido o primado da competência, cada um é aquilo que consegue ser e que se esforça por ser. Se um indivíduo parte com uma vantagem inata, a tal inteligência fluida, estará supostamente melhor equipado para chegar mais longe mas isso não lhe confere qualquer estatuto especial ou não pode ser penalizado por isso!

"a inteligência deve ser promovida?"

Mas é claro! A história humana é a evidência máxima da promoção da inteligência que por sua vez promove o avanço da espécie e da sociedade que esta criou.

Existe apenas um método provado para a evolução da humanidade: encontrar a inteligência, suportá-la, alimentá-la e depois deixá-la dirigir. A Humanidade precisa da inteligência para sobreviver (sim, para sobreviver)... Nenhum outro método alguma vez resultou e nenhum outro alguma vez resultará.

"Deliberadamente ignorada para que os menos inteligentes não sejam discriminados?"

Parafraseando Thoreau, em maus lençóis estará esta geração (ou já está, por erros de gerações anteriores?) se desperdiçar os melhores de entre si, aqueles que mais faculdades evidenciam.

O facto de se apoiar as crianças que evidenciam maiores ou melhores aptidões intelectuais não é uma questão que possa ser encarada de ânimo leve! Evidentemente que devemos esperar que essas crianças sejam no futuro os líderes da sua geração e sendo assim devem ser "acarinhadas" para que nesse futuro que é já ali à frente assumam as suas responsabilidades e contribuam para uma sociedade melhor para todos.

Crianças com necessidades educativas especiais existem nos dois extremos da escala. Se DEVEMOS por todos os meios ao nosso alcance assegurar que aqueles com dificuldades escolares notórias sejam apoiados para que possam gozar de uma cidadania plena amanhã, também DEVEMOS ajudar as crianças sobredotadas a desenvolverem todo o seu potencial... a bem de todos. A sociedade quer-se mais justa, mais culta, mais desenvolvida tecnologicamente, mais rica em suma... o que certamente não se consegue desperdiçando talentos.

Essa estratégia de "nivelar por baixo" em nome de pseudo pedagogias politicamente correctas e confortáveis para as estruturas educativas (porque pouco motivadas e sem qualquer incentivo) já está a dar os seus frutos... olhem à vossa volta...



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