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O Mito da Inteligência Emocional PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por A.H. Fuerstenthal   
Sexta, 19 Fevereiro 2010 21:42

Em tempos remotos, quando a humanidade ainda não tinha embarcado no entretenimento por meios tecnológicos, o único jeito para superar o tédio do cotidiano sóbrio era a fuga para o mundo da fantasia. Esse mundo era habitado por seres milagrosos, assim como, por exemplo, os dragões, os vampiros, as sereias e uma esfinge.
Para o setor romântico da psicologia moderna, sob a sábia orientação do psiquiatra Carl Gustav Jung, estas criaturas mitológicas são simples combinações de impressões reais.
Crocodilos com asas de morcego, morcegos com almas mal intencionadas de aristocratas perversos, jovens cantoras com rabos de peixe, uma mulher faminta e sofisticada com corpo de leoa. Nada de revelações de outro mundo, e sim apenas a mistura de percepções, facilmente recriada por qualquer ser contemporâneo infantil ou adulto, normal ou debilóide, que tenha o dom da imaginação.

Com toda a tecnologia à disposição, a alma contemporânea não perdeu a força criativa nem a pretensão mitológica. Nesse contexto surgiu a Inteligência Emocional do Sr. Daniel Goleman.

Aliás, o autor, tendo adquirido um Ph.D. em Psicologia pela Universidade de Harvard, sabe ornar sua proposta mitológica com amplas referências a relacionamentos humanos. Mesmo assim, a inteligência emocional é uma fuga para o mundo da fantasia.

Ora, o impacto da emoção sobre a inteligência, ou seja, sobre o uso do raciocínio, é reconhecido desde o início do pensamento psicológico. Referimo-nos às idéias dos sábios orientais e dos pré-socráticos. Sempre se soube que as paixões confundem o pensamento. Seja desejo, seja repulsa, seja medo, seja rancor, seja melancolia, seja euforia, seja qualquer outro estado emocional, eles esquentam a cabeça e são, portanto, antagônicos ao raciocínio lógico. De fato a inteligência emocional é a contradição em termos.

A única emoção que é favorável à atividade mental é o interesse. Mesmo assim, o interesse em si não é inteligente, mas apenas estimula a concentração e o esforço mentais. Na sua casuística em torno da inteligência emocional, Goleman mostra claramente do que se trata. Um dos seus exemplos se refere ao caso de um brutalhão bêbado que assusta e ameaça todos os ocupantes de um vagão de metro. Um dos presentes, treinado em artes marciais, já se apronta para enfrentar o monstro. Mas outro, frágil e idoso, chama o beligerante para o assento vazio ao seu lado e o envolve numa conversa sobre assuntos fortuitos de comum interesse, indo de bebidas a esposas. O perturbador da paz entra no diálogo e revela momentos trágicos da sua vida. Tudo acaba em harmonia, simpatia e lágrimas. O autor não perde a oportunidade de caracterizar o procedimento como exercício brilhante de inteligência emocional.

Será que é isto mesmo? Não é simplesmente a observação e interpretação bem racional de um estado emocional de outro indivíduo, seguidas por uma manobra esperta para amenizar aquele estado? Mas, se a suposta inteligência emocional se resume na manipulação da emocionalidade alheia, por que o autor não usa esta, a verdadeira fórmula, como título da sua tese?

Bem, há uma diferença entre escrever um livro e escrever um best seller. O público, na sua maior parte, não se interessa pelo desenvolvimento equilibrado e correto de idéias, qualquer que seja o seu conteúdo. O que adora encontrar, desde tempos homéricos, é o surpreendente, o extraordinário, o supernatural, o quase impossível. Quer assistir à encarnação do paradoxo, ao nascimento do mito. Não é de admirar que a inteligência emocional, sendo um tal paradoxo, promete se tornar o mito do século.

Contudo, apesar de todas as objeções, o Sr. Goleman não deixa de ser um grande psicólogo prático, no sentido de um manipulador perfeito da humanidade. Basta pensar na legião de indivíduos com cursos escolares incompletos, com vestibulares abandonados, com iniciativas mal sucedidas, em suma, indivíduos cuja experiência de vida os marcou como portadores de pouco potencial intelectual.

Com o advento da inteligência emocional, o cenário desses infelizes mudou radicalmente. Agora, basta ter algum sucesso social, ser aceito como bom companheiro, simpático, inofensivo, divertido, para entrar como membro de nova aristocracia mental. Pensando bem, a obra que lança o conceito da inteligência emocional merece mais do que um mero best seller. Merece algo como prêmio da salvação daquele setor da humanidade que até então viveu condenado ao purgatório da insignificância.

Este artigo é um dos capítulos que compõem o livro Psico-Crítica do Cenário Contemporâneo, de A.H. Fuerstenthal, publicado pela Editora Tama.



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